domingo, fevereiro 20, 2011

Uma pedra em minha vida... ou a pedra do caminho

Um dia  subi até o alto da serra. Lá de cima se vê o vale lá embaixo. Boa Esperança, diminuída na distância, deitada entre o verde dos campos e o azul do rio Grande, imenso, que Furnas transformou em ,ar. Lá de cima, olhando para baixo, a gente se pergunta: "o que estarão fazendo?". Antoine de Sant-Exupéry fazia a mesma pergunta nos vôos noturnos, ao ver os pontos luminosos que marcavam casas e pessoas, lá embaixo, no meio da escuridão. Vi uma pedra no chão, pedra comum, sem nada de especial e pensei que ela estava lá há milhões de anos, contemplando o vale. peguei os milhões de ano nas mãos e o vale que ela tinha dentro...
Aí fiz uma maldade: tirei-a da sua casa e trouxe-a para o meu escritório. Quando olho para ela lembro-me da serra e do vale...
[Rubem Alves]

"Antes de tudo, sou uma cientista", disse. Ou pelo menos é assim que eu queria ser. Sou curiosa. À morte por um segredo. Desde que me lembre, sempre estive de fora das brincadeiras, dos padrões, da lógica e do gosto das outras crianças. Dava-me bem com adultos, talvez por isso tenha-se tornado tão ávida a minha busca por aquele universo. As crianças eram perversas e os adultos instigantes, tudo o que uma mente curiosa precisava.

Nos momentos em que me encontrava sozinha (que era todo o tempo que não tinha a atenção de um adulto, ou que era obrigada ao convívio com os demais), devorava toda e qualquer fonte de informação disponível: livros, dicionários, enciclopédias, jornais, revistas, 'causos'... Os 'causos' dos antigos, ah, esses casos... transportavam-me  para um tempo em que jamais vivi, ou será que o vivia a cada relato?! Colecionava tudo o que fosse antigo, que tivesse uma história maior que a minha. Também pudera. Tudo o que tivesse mais de dez anos, ou tivesse pertencido a alguém acima dessa idade preencheria tal requisito. Virei uma colecionadora de quinquilharias. Ah, esses novos companheiros foram de especial alento em momentos de solidão... uma solidão que me consumia, mas também era alimento para minha mente. Fases, e fases.


Na curiosidade por desvendar os segredos que as palavras escondiam, aprendi a ler quase que por instinto... contudo, essa seda jamais foi saciada, só fazia crescer e diversificar. Ah, a TV a cabo e as publicações científicas. Pena a disponibilidade da web não ter acompanhado os anos mais alucinantes dessa jornada. Terminei por me enclausurar em mim mesma e nos vários cômodos em que solitariamente podia exercer minha vocação para procurar respostas aos questionamentos que ninguém se ocupa. Preguiça ou falta de imaginação?


Sonhar descobrir fórmulas milagrosas. Das poções feitas com artigos vindos da horta de vovó, às pesquisas e publicações científicas. Como a Química fez bem, à minha vida. Amigos que jamais esquecerei, amadurecimento forçado em tempo récorde. Mas cada noite não/mal dormida fez milagres pela minha experiência antropófaga contínua. Tantas descobertas e um 'multiverso' a desvendar.


De tanto buscar conteúdo, sentia-me rasa. Preferia os livros às pessoas. Medo do mundo. Confesso que minha necessidade de tornar tudo um sistema logicamente observável (quando não governável), tornou-me menos propensa a sentir. Não que meus sentimentos não existisse, só os racionalizava. Passional! Como se a cada momento luto para não estabelecer uma razão lógica para cada suspiro ou reação emocional. Uma consciência dual e um ser tão avidamente lógico e coerente. Quanta incoerência!


Hoje eu sou apenas o reflexo de quem gostaria de ser. Como que perdida na 'caverna de Platão', tateio em busca da verdade.


Essa era para ser a história de como decidi ser uma pesquisadora, e talvez ainda o seja. Isso se souberem que na fome da minha curiosidade, a primeira coisa que colecionei foi uma pedra... na verdade, um cristal de quartzo que até então me acompanhava. Hoje se perdeu numa das várias mudanças por que passei, mas a imagem do seu prisma após ser lapidado, essa nunca se perderá. Foi assim que a minha curiosidade nessa busca incansável por informação esbarrou na ciência. Quando uma pedra comum, trouxe-me uma parcela dos milhões de anos de conhecimento que ela encerrava.


A dúvida que me persegue desde então é: se o ícone da minha jornada pôde perder-se, como resgatar a fonte desse sentimento vibrante que transformou-me no Abaporu de minha própria existência? Talvez o ícone marcasse uma fase agora concluída. Alguém me disse que 'o que te trouxe até aqui, agora não é mais suficiente para o resto da caminhada'. É preciso achar meu norte em outra direção.

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